Pensar é transgredir

By leomello

Hoje comecei a ler um livro que até agora tem se apresentado muito bom, chama-se Pensar é Transgredir, de Lya Luft. O livro é formado por pequenos capítulos, sendo cada um deles um estímulo ao pensamento. A medida que for lendo, vou transcrevendo aqui alguns trechos que achar interessante. Na verdade recomendo que vocês comprem o livro e o leiam inteiro! =]

Vamos ao primeiro trecho:

A visita do anjo

O Homem estava pegando as chaves do carro (a mulher já tinha saído para levar as crianças à escola) quando toca a campainha.

Irritado, pois já se atrasara bastante, ele abre a porta:

- Sim?

O ser andrógeno, belo e feio, alto e baixo, negro e louro, faz um sinalzinho dobrando o indicador:

- Vim buscar você.

Não era preciso explicar, o homem entendeu na hora: O Anjo da Morte estava ali, e não havia como escapar. Mas, acostumado a negociações, mesmo perturbado ele pensou que era cedo, cedo demais, e tentou argumentar:

- Mas, como, o quê? Agora, assim, sem aviso sem nada? Nem um prazo decente?

O anjo sorri um sorriso bondoso e perverso, suspira e diz:

- Mas ninguém tem a originalidade de me receber com simpatia neste mundo, ninguém nunca está preparado? Está certo que você só tem quarenta anos, mas mesmo os de oitenta…

O homem agarrou mais firme a chave do carro que acabara encontrando no bolso do paletó, e insistiu:

- Vem cá, me dá uma chance.

O anjo teve pena, aquele grandalhão estava realmente apavorado. Ah, os humanos… Então teve um acesso de bondade e concedeu:

- Tudo bem. Eu te dou uma chance, se você me der três boas razões para não vir comigo desta vez.
(Passava um brilho malicioso nos olhos azuis e negros daquele Anjo?)

O homem aprumou-se, claro, ele sabia que ia dar certo, sempre fora bom negociador. Mas, quando abria a boca para começar sua ladainha de razões – muito mais que três, ah sim – o Anjo ergueu um dedo imperioso:

- Espera aí. Três boas razões, mas… não vale dizer que seus negócios precisam ser organizados, sua mulher nem sabe assinar cheque, seus filhos nada conhecem da realidade. O que interessa é você, você mesmo. Por que valeria a pena ainda te deixar aqui por algum tempo?

Sua resposta, qual seria? Com que argumentos você persuadiria o anjo visitante a não te levar? Seriam argumentos falsos, inventados na hora, ou brotariam da sua eventual contemplação – e reavaliação – da vida, e do sentido de tudo, de seus projetos e esperanças?

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